Lula apoia o discurso de Dilma na ONU – DO Instituto Lula

Dilma na ONU

DEMOCRACIA E PARCERIA, por Luiz Inácio Lula da Silva
 

São gravíssimos os atos de espionagem praticados pela NSA – a Agência Nacional de Segurança dos EUA – contra os Chefes de Estado do Brasil e do México. Nada, absolutamente nada pode justificar a interceptação de telefonemas e a invasão da correspondência reservada dos Presidentes da República de países amigos, ferindo a sua soberania e desrespeitando os princípios mais elementares da legalidade internacional. E é mais grave ainda que importantes autoridades norte-americanas tenham querido legitimar tal agressão com o argumento de que os EUA estariam “protegendo” os interesses dos nossos países.

À medida que a verdade dos fatos vai sendo revelada, fica evidente que, no caso brasileiro, além da Presidente Dilma Rousseff, a Petrobrás, nossa empresa petrolífera, também foi espionada pela NSA, o que desmente as alegadas – e já por si inaceitáveis – razões de segurança.

A inadmissível ingerência nos assuntos internos do Brasil e as falsas razões alegadas provocaram a indignação da sociedade e do governo brasileiros. A Presidente Dilma Rousseff já questionou diretamente o Presidente Barack Obama sobre o problema e aguarda uma resposta convincente, à altura de sua gravidade.

O governo brasileiro está tratando o caso com a maturidade e o sentido de responsabilidade que caracterizam a Presidente Dilma Rousseff e a nossa diplomacia – mas é impossível subestimar o impacto que ele pode ter, se não for adequadamente resolvido, para as relações Brasil-EUA.

Basta imaginar o escândalo e a comoção que aconteceriam nos Estados Unidos se algum país amigo interceptasse ilegalmente, sob qualquer pretexto, os telefonemas e a correspondência reservada de seu Presidente.

O que leva um país como os EUA, tão justamente ciosos de sua democracia e de sua legalidade internas, a afrontarem a democracia e a legalidade dos outros? O que faz pensar às autoridades norte-americanas que elas podem e principalmente devem agir de modo tão insensato contra um país amigo? O que as faz acreditar que não existe nenhum inconveniente moral ou político em desrespeitar o Chefe de Estado, as instituições e as empresas do Brasil ou de qualquer outro país democrático?

E o mais inexplicável é que essa flagrante ofensa à soberania e à democracia brasileiras acontece num contexto de excelentes relações bilaterais. O Brasil, historicamente, sempre valorizou as suas relações com os Estados Unidos. Nos últimos dez anos, trabalhamos ativamente, e com bons resultados, para ampliar ainda mais a interação econômica e política do Brasil com os EUA.  Mantivemos ótimo diálogo institucional e pessoal com os seus governantes. Apostamos em uma parceria de fato estratégica entre os dois países, baseada em interesses comuns, sem prejuízo do nosso esforço pela integração da América Latina e de um maior intercambio com a África, a Europa e a Ásia.

Para isso, não hesitamos em enfrentar a desconfiança e o ceticismo de amplos setores da opinião pública brasileira, ainda traumatizados pela participação direta do governo norte-americano no golpe de Estado de 1964 e o seu permanente apoio à ditadura militar (como, de resto, a outras ditaduras militares do continente). Nunca duvidamos de que aprofundar o diálogo e fortalecer os laços econômicos e diplomáticos com os Estados Unidos fosse a melhor maneira de ajudá-los a superarem aquela página sombria das relações interamericanas, e a sua política de ingerência autoritária e antipopular na região.

No episódio atual, se ambos os países querem preservar o muito que as nossas relações bilaterais avançaram nas décadas recentes, cabe uma explicação crível e o necessário pedido de desculpas dos EUA. Mais do que isso: impõe-se a sua decidida mudança de atitude, pondo fim a tais práticas abusivas.

 Os EUA devem compreender que a desejável parceria estratégica entre os dois países não pode assentar-se na atitude conspirativa de uma das partes. Condutas ilegais e desrespeitosas certamente não contribuem para construir uma confiança duradoura entre os nossos povos e os nossos governos.

Um episódio como esse, por outro lado, demonstra o esgotamento da atual governança mundial, cujas instituições, regras e decisões são frequentemente atropeladas por países que muitas vezes confundem seus interesses particulares com os interesses de toda a comunidade internacional. Demonstra que é mais urgente do que nunca superar o unilateralismo, seja ele dos EUA ou de qualquer outro país, e criar verdadeiras instituições multilaterais, capazes de conduzir o planeta com base nos preceitos do Direito Internacional e não na lei dos mais fortes.

O mundo de hoje, como ninguém ignora, é muito diferente daquele que emergiu da 2ª Guerra Mundial. Além da descolonização africana e asiática, diversos países do sul se modernizaram e industrializaram, conquistando importantes progressos sociais, culturais e tecnológicos. Com isso, adquiriam um peso muito superior no cenário mundial. Hoje, os países que não fazem parte do G-8 representam nada menos que 70% da população e 60% da economia do mundo. Mas a ordem política global continua tão monopolizada e restritiva quanto no inicio da guerra fria. A maioria dos países do mundo está excluída dos verdadeiros espaços de decisão. É injustificável, por exemplo, que a África e a América Latina não tenham nenhum membro permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Ou que a Índia esteja fora dele. A governança global precisa refletir o mundo contemporâneo. O Conselho de Segurança só será plenamente legítimo e democrático – e acatado por todos – quando as várias regiões do mundo participarem dele, e os seus membros não defenderem apenas os próprios interesses geopolíticos e econômicos, mas representarem efetivamente o anseio de todos os povos pela paz, a democracia e o desenvolvimento.

Esse episódio e outros semelhantes apontam também para uma questão crucial: a necessidade de uma governança democrática para a internet, de modo que ela seja cada vez mais um terreno de liberdade, criatividade e cooperação – e não de espionagem.

Luiz Inácio Lula da Silva é ex-presidente do Brasil
 
 
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De TVT: Lula afirma que Gushiken foi vítima de mentiras e cobra desculpas da imprensa 14/09/2013

Por Redação/ Rede Brasil Atual
São Paulo – O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou hoje (14) em São Paulo que o ex-ministro Luiz Gushiken foi vítima de mentiras contadas por parte da imprensa, que agora deveria apresentar uma retratação formal pelo desgaste que provocou ao petista, morto ontem vítima de um câncer.
“O Gushiken foi uma das vítimas da mentira de uma parte da imprensa deste país. Eu sei o que o companheiro Gushiken sofreu com as infâmias que levantaram contra ele. Muitas vezes o irresponsável que levanta uma acusação sem ter provas não leva em conta a história das pessoas, que a pessoa tem mulher, tem filhos”, disse Lula durante encontro de integrantes do PT paulista na quadra do Sindicato dos Bancários de São Paulo, no centro da capital.
Luiz Gushiken, que comandou a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República após ser um dos coordenadores da campanha vitoriosa pelo Planalto em 2002, chegou a ser acusado de participação no episódio apelidado de mensalão. Apenas no ano passado, após sete anos da eclosão do caso, o Supremo Tribunal Federal (STF) considerou que não havia provas contra o ex-ministro.
“Depois de sofrer tantos anos como ele sofreu, de um lado pela doença, de outro lado pela perseguição, quando provam que é inocente, pelo menos a imprensa que o acusou deveria ter vergonha na cara e publicar uma manchete amanhã pedindo desculpas ao Gushiken. Pedir desculpas não é feio para ninguém. Deveria o jornalista canalha que acusou Gushiken sem provas pedir desculpas.”
O ex-presidente abriu sua fala afirmando que cogitou cancelar sua participação no encontro depois da morte do amigo, recebida ontem à noite quando voltava de Brasília. Os dois se conheciam desde o final da década de 1970, quando Lula comandava o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e Gushiken fazia parte da direção do Sindicato dos Bancários de São Paulo, que assumiu em 1985. Os dois foram fundadores da CUT e do PT, e mais tarde, em 2002, Gushiken, já doente, foi chamado por Lula para ser um dos coordenadores da campanha à Presidência.
Lula revelou que o companheiro lhe pediu poucos dias antes de morrer que trabalhasse para “recuperar” o partido. “Nosso partido não pode ser um partido apenas para disputar eleição. Se fosse só para disputar eleição a gente não precisava ter criado um partido. Nosso partido foi criado para disputar eleição, mas foi criado sobretudo para a gente estar 24 horas por dia ajudando a organizar a luta do povo brasileiro. É para isso que existe um partido político”, advertiu o ex-presidente, que demonstrou insatisfação pelo fato de a sigla não encabeçar as manifestações ocorridas em junho em todo o país.
Lula olhou para o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, e recordou que foi ele quem introduziu, durante a campanha eleitoral do ano passado, a ideia de que a vida do povo brasileiro havia melhorado da porta de casa para dentro, ou seja, em termos de poder de consumo, mas não havia avançado da porta para fora, na prestação de serviços públicos.
“Era um movimento que clamava por melhores condições de vida. Não importa quem foi e quem não foi, era o povo brasileiro. Não importava se gostava do PT ou não gostava, era o povo brasileiro. O dado concreto é que o povo foi às ruas clamar por melhores condições de vida. O que eu digo? Temos que aprender uma lição: o partido é que poderia estar puxando esses movimentos. E não é contra o nosso prefeito Fernando Haddad, não é contra a presidenta Dilma, contra o Lula. É a favor deles, é a favor do povo brasileiro”, disse.
Documento
O Encontro da Região Metropolitana do PT de São Paulo acabou encerrado mais cedo por conta do velório de Gushiken, realizado na zona oeste da capital paulista. O evento contou com a presença dos ministros da Saúde, Alexandre Padilha, do Planejamento, Miriam Belchior, e da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicurri, além de Haddad, de deputados federais e estaduais e de líderes sindicais.
O presidente do PT, Rui Falcão, classificou Gushiken como homem “de extrema retidão, de uma serenidade ímpar, de uma sabedoria inigualável”, e também abordou o que considera uma injustiça. Em meio às denúncias, em 2005, o petista deixou a Secretaria de Comunicação Social, e ficou até novembro do ano seguinte como chefe do Núcleo de Assuntos Estratégicos. Na ocasião, em carta pública, ele afirmou que deixava o cargo para se defender, acusou haver uma tentativa de destruir reputações e disse que o clima político-eleitoral “envenenou o ambiente.” “Com a nova fase que se configura na vida política do país delineia-se uma ampla renovação de dirigentes na administração pública federal, movimento natural e positivo para o seu segundo mandato”, acrescentou.
Para Falcão, trata-se de um “documento histórico, de desapego a cargos, de desprezo pelo poder a qualquer custo. Gushiken dizia que hoje no Brasil basta apenas uma acusação para se sentir culpado sem julgamento”. O presidente do PT afirmou que a sigla vive “dias semelhantes”, sem citação direta ao julgamento da Ação Penal 470 pelo STF. “Num gesto de amor a nosso partido, Gushiken escolheu nos deixar no dia 13, simbolizando na sua despedida o amor a esse número que ele ajudou a forjar com muita dedicação”, completou.